Foto: Agência O DIA.
No dia 15 de fevereiro, quarta-feira de cinzas, após a abertura dos envelopes, a Portela alcançou um amargo 9º lugar no carnaval de 2010. Quando comparado com os outros desfiles realizados na gestão do presidente Nilo Figueiredo, este resultado dá a dimensão do que foi a colocação da escola em 2010. Após o desastroso 13º lugar do ano de 2005, este foi o segundo pior resultado da escola em seis anos de desfiles, fazendo-a reviver o pesadelo de um possível rebaixamento.
Dados os inúmeros equívocos cometidos ao longo da fase preparatória para o carnaval 2010, uma análise sobre o que desencadeou o fraco desfile da Portela neste ano não se mostra complicada, permitindo, inclusive, afirmar que a colocação da escola foi justa. Aliás, também seria justo afirmar que esta colocação só não foi mais ingrata porque algumas das penalizações aplicadas pelos julgadores aos desfiles da Unidos do Porto da Pedra e da União da Ilha do Governador superaram, de forma questionável, as penalizações recebidas pela Portela. Ao longo da apuração, a Portela conquistou poucas notas dez, algumas delas descartadas sem que houvesse outras notas dez que as substituíssem, o que, em alguma medida, demonstra a fragilidade da apresentação da escola em diversos quesitos.
Excetuando 2008, nos últimos anos tem sido costume a Portela perder boa parte da pontuação em quesitos de barracão, isto é, aqueles que são influenciados diretamente pelo trabalho do carnavalesco. Conforme demonstrado abaixo, já considerando o descarte de notas, no ano de 2010 esse quadro não foi diferente.
1º) Alegorias e Adereços: a Portela acumulou apenas 28,9 pontos. A pontuação da escola só foi superior à da Unidos do Viradouro, que foi rebaixada para o Grupo de Acesso. Uma emblemática nota 9 foi descartada, a nota mais baixa de toda a apuração, entre todas as escolas de samba em todos os quesitos.
2º) Fantasias: a Portela somou o total de 29,3 pontos. Nesse quesito, a Portela só foi superior à Unidos do Porto da Pedra e à Unidos do Viradouro. Mais uma vez, uma nota 9,4, muito baixa para os padrões atuais de julgamento, foi descartada.
3º) Enredo: a Portela somou 29,2 pontos, tendo sido superior apenas à Unidos do Viradouro.
A soma das notas obtidas nos três quesitos acima mencionados, isto é, 87,4 pontos, indicou, conforme a visão da comissão julgadora, que a Portela só não foi pior que a Unidos do Viradouro. Mirando a ponta de cima da colocação final, percebe-se que até aqui, em apenas esses três quesitos, a Portela já estava 2,6 pontos atrás da campeã Unidos da Tijuca. Como se não bastasse, a Portela perdeu nesses três quesitos 54% do total de pontos perdidos.
Partindo das informações sobre a pontuação da Portela nos quesitos de barracão, a péssima performance da escola nesses quesitos pode ser facilmente explicada, pelos comentários abaixo listados:
- O equívoco pela opção por um enredo de difícil carnavalização, associado também à inexperiência dos carnavalescos da Portela;
- Através das alegorias e adereços não foi possível compreender a mensagem que a Portela desejava transmitir ao público e aos jurados. Adicionalmente, a execução das alegorias foi comprometida pelos materiais e acabamentos de qualidade duvidosa. As alegorias se mostraram extremamente vazias e os recursos tecnológicos utilizados, isto é, a iluminação e os telões, que supostamente seriam um diferencial, não surtiram o efeito e a comunicação desejados. Carnavalescos mais experientes possivelmente teriam conhecimento de que, normalmente, tais recursos não surtem o resultado desejado e esperado na avenida;
- Tanto as fantasias das alas de comunidade quanto aquelas de diversas alas comerciais foram produzidas com um padrão de qualidade que não condiz com as tradições portelenses, isto é, com qualidade de material e de execução ruins. Como prova, podemos citar os inúmeros problemas que os componentes das alas de comunidade e comerciais tiveram quando perceberam as fantasias se desmanchando ao longo do desfile. Além disso, as fantasias não tinham um significado objetivo que auxiliasse na leitura do frágil enredo portelense, assim como não possuíam formas e colorido que compusessem um conjunto visualmente satisfatório e agradável para quem assistia e para os jurados. A realização do projeto não surtiu efeito e não causou o impacto esperado.
Ademais, não se mostra equivocado concluir sobre a possibilidade da “contaminação” dos jurados de outros quesitos em que a Portela foi mal avaliada, como, por exemplo, bateria, pelo péssimo visual apresentado pela escola na avenida. Em qualquer quesito, é mais fácil penalizar uma escola que naturalmente já vai mal, do que aquelas que estão, de fato, disputando o campeonato.
Conclui-se, portanto, que a Portela dependeu exclusivamente dos chamados quesitos de chão. Acrescenta-se a esses quesitos o desempenho do casal de mestre-sala e porta-bandeira, conforme listado adiante.
4º) Harmonia: considerando o descarte das notas, assim como outras seis escolas, a Portela obteve a pontuação máxima. A única nota diferente de 10,0 foi um 9,9, que fora descartado.
5º) Evolução: a escola somou um total de 29,7 pontos, obtendo três notas 9,9, já considerando o descarte de notas. Uma vez que as notas neste quesito foram equivocadamente altas para a maioria das escolas, outras sete somaram mais pontos que a Portela, sem que se reduza, entretanto, o mérito da Portela neste quesito.
6º) Mestre-Sala e Porta-Bandeira: considerando o descarte de notas, a Portela obteve a pontuação máxima nesse quesito. Mesmo sem o descarte, a Portela obteve um resultado excelente, perdendo apenas 1 décimo (0,1 ponto), sendo superada apenas pelo casal da Beija-Flor.
Dos quesitos acima mencionados, é digno de feliz destaque o trabalho da direção de harmonia da Portela, que mesmo antes do desfile, isto é, ao longo dos ensaios de quadra e na avenida, já vinha sendo elogiado. Provavelmente, os décimos perdidos no quesito evolução podem derivar de duas situações: o tempo em que a escola permaneceu parada para o atendimento da destaque do carro abre-alas e/ou a supervalorização pelos jurados, por conta do visual equivocado que a Portela apresentou, de pequenos deslizes não penalizados em outras escolas que disputavam o campeonato.
Registra-se também o desempenho excepcional do casal de mestre-sala e porta-bandeira, Rogerinho Dornelles e Lucinha Nobre, que conquistou notas máximas no quesito, pontuação que a escola não obtinha há muitos anos.
Outro conjunto de quesitos em que a Portela não obteve boa performance incorpora os quesitos samba-enredo, bateria e comissão de frente.
7º) Samba-enredo: considerando o descarte de notas, a Portela obteve 29,3 pontos, pontuação superior apenas à da Unidos do Viradouro, escola rebaixada para o Grupo de Acesso.
8º) Comissão de Frente: já considerado o descarte de notas, a Portela obteve 29,5 pontos, tendo sido superior a apenas três escolas. Destaca-se que, sem o descarte, a Portela obteve duas notas 9,7, a segunda pior entre as notas recebidas por todas as escolas neste quesito.
9º) Bateria: surpreendentemente, pela avaliação da comissão julgadora, a bateria da Portela foi considerada superior apenas à bateria da Unidos do Viradouro. Num quesito em que a grande maioria das escolas recebeu notas muito altas, a Portela somou 29,5 pontos, já considerado o descarte de notas.
Em relação ao quesito samba-enredo, desde a escolha do samba a composição portelense foi classificada pela crítica carnavalesca, por muitos portelenses e amantes do samba como pouco inspirada e melodicamente assemelhada com os sambas dos anos de 2008 e de 2009. Obviamente, a escolha equivocada do enredo e a demora na sua definição também dificultaram o trabalho da ala de compositores da escola, resultando em um samba de qualidade inferior à grande parte dos sambas portelenses. É digno de registro, entretanto, o fato de as alas de comunidade terem abraçado o samba, o ótimo trabalho da direção de harmonia e a competentíssima atuação do intérprete Gilsinho, que não permitiram que o frágil samba influenciasse negativamente a harmonia da escola e afundasse, de forma definitiva e cabal, o desfile da Portela.
Sobre a comissão de frente, fica difícil destacar qualquer ponto positivo em sua apresentação. Apesar de razoavelmente bem sincronizada, a coreografia se mostrou absolutamente vazia, sem nenhum grande momento ou ápice que permitisse uma maior comunicação com o público e a consolidação do seu significado perante o enredo da escola. O tripé utilizado na apresentação da comissão também não teve função alguma. É fundamental destacar que a comissão de frente da Portela iniciou os seus ensaios no dia 4 de janeiro, faltando pouco mais de um mês para o início do carnaval, algo impensado para uma escola que atualmente pretenda disputar o campeonato. É mais uma ponta do trabalho que indica falta de planejamento por parte da diretoria para o desfile de 2010, já que o coreógrafo da comissão só foi escolhido no fim de 2009.
A maior surpresa negativa da apuração foi a pontuação obtida pela bateria da Portela. Sem acessar as justificativas, fica difícil compreender o motivo das penalizações por parte da comissão julgadora. Destaca-se que, após muitos anos, em 2010 a bateria da Portela voltou a receber o prêmio Estandarte de Ouro, do jornal O Globo. A excelente performance da bateria portelense fez crescer também o frágil samba da Portela. Destaca-se a grande criatividade das excelentes bossas criadas pelo Mestre Nilo Sérgio. Muito boa também foi a coreografia apresentada pela bateria ao longo do desfile, o que se não foi fundamental, foi um diferencial positivo e auxiliou no estabelecimento de comunicação imediata entre a escola e o público, sobretudo nos setores finais da avenida (setores 4, 11, 6 e 13).
Apesar de não ser alvo de julgamento, cabe destacar o excelente trabalho desenvolvido por Nilce Fran e Valcir Pelé no comando da ala de passistas da Portela. Atualmente, a escola possui uma das melhores alas de passistas do carnaval carioca. O trabalho desenvolvido por eles merece destaque, respeito e deve ser continuado.
O 9º lugar obtido aponta que a escola deve ajustar decisivamente alguns quesitos. Nos últimos anos, a carência na parte estética tem se mostrado de forma bastante clara, o que, em 2010, por exemplo, pode ser medido através das notas baixas obtidas nos quesitos alegorias e fantasias e por toda a repercussão negativa que teve o desfile da escola. Lembramos que, apesar do notório reconhecimento em relação à boa performance da Portela nos quesitos de chão, é possível destacar que a parte estética funciona como uma espécie de cartão de visitas da escola, podendo influenciar indiretamente no julgamento de outros quesitos. Em relação a isso, a única solução razoável e inteligente é a contratação de um carnavalesco com renome, experiência e trabalhos reconhecidos. Porém, isso não basta. É preciso respeitar a concepção artística do carnavalesco e de sua equipe de realização. É preciso, por parte da administração da escola, ter planejamento que passe confiança à equipe de carnaval contratada e que demonstre vontade real em se atingir resultados que honrem a história da Portela. Se o desejo da escola é no curtíssimo prazo alcançar o 22º campeonato, não cabem economias, tampouco experimentar carnavalescos que ainda não apresentaram resultados ou trabalhos de destaque. Há de se fazer uma contratação de impacto. Caso contrário, a Portela continuará perdendo mais da metade de seus pontos nesses quesitos, o que não se admite em escola que disputa o título.
Outro ponto fundamental é a decisão da escola por enredos patrocinados que não apresentam conteúdo cultural. Nos últimos dois anos, os pontos perdidos pela Portela nesse quesito são a prova de que esta opção já está mais do que desgastada. A partir do ano de 2003, numa retrospectiva, excetuando-se a reedição em 2004, a escola não tem optado por um enredo que lhe possibilite grandes alternativas de carnavalização. Está mais do que na hora de a Portela optar por um enredo com conteúdo de fato. Um enredo que não seja apenas uma campanha publicitária ou político-partidária. Ademais, a opção por enredos culturais normalmente facilita e permite a composição de sambas-enredo que mais se aproximem da alma portelense e que motivem a participação da brilhante ala de compositores da escola. Nesse sentido, se o samba portelense não comprometeu o desfile de 2010, ele tampouco esteve à altura das tradições portelenses de grandes sambas. Além disso, não se pode demorar tanto na definição dos enredos porque isso atrasa sobremaneira o planejamento da escola. De forma prática, dado que há uma data para a gravação do CD, que não sofre alteração entre um ano e outro, acaba que o atraso na definição do enredo permite pouquíssimo tempo para a elaboração dos sambas, ou seja, o prejuízo na qualidade das obras é quase certo.
Sem economizar nos adjetivos, o carnaval apresentado pela Portela em 2010, bem como aquele apresentado no ano de 2005, entra para a galeria dos desfiles, não só dos carnavais portelenses, mas de todos os carnavais em todos os tempos, a serem esquecidos. O desfile de 2010 da Portela deve servir apenas como referência, para esta gestão e para outras que eventualmente a sucederão, sobre a forma como uma escola de samba que respeita a sua história, os seus baluartes e a sua apaixonada torcida NÃO deve ser tratada. Desleixo e falta de compromisso são termos que podem ser utilizados para definir a gestão do carnaval da Portela no ano de 2010.
Até onde todos acompanharam, a Portela contou com o patrocínio de uma empresa de computadores, como auxílio para a preparação do seu desfile em2010. Somando-se a este recurso outros advindos da parte que lhe cabe sobre os direitos da transmissão dos desfiles e dos ingressos vendidos do Sambódromo, da arrecadação de quadra, das fontes governamentais, entre outros, fica muito difícil compreender como a escola pôde levar um visual tão empobrecido para a avenida.
Na gestão do presidente Nilo Figueiredo, a estratégia para a escolha de enredos tem se baseado na opção por aqueles que permitam que a escola capte recursos públicos e privados para o auxílio no desenvolvimento do seu carnaval. Os carnavais apresentados pela escola nesses últimos seis anos quase sempre têm beirado o mau gosto e a falta de criatividade. Se, portanto, a opção por enredos “patrocináveis”, seja por má utilização dos recursos financeiros ou por falta de competência para administrá-los, não vem surtindo bons resultados, fica mais uma vez comprovado que é necessário buscar um caminho diferente. O portelense orgulhoso de sua escola urra pela opção por um enredo digno das tradições da Portela.
Adicionalmente, é inacreditável que, entre todas as escolas do Grupo Especial, a Portela seja aquela que, nos últimos seis anos, sempre tenha problemas para finalizar o seu carnaval, julgando possível montar as suas alegorias na semana e, até mesmo, nas horas que precedem o desfile. O mínimo a se afirmar é que não existe planejamento de carnaval implementado pela atual administração portelense. O tempo do amadorismo no desfile das escolas de samba há muito já se foi. Planejamento de carnaval, contendo as metas, as responsabilidades e os prazos a serem alcançados, é atividade fundamental, cuja construção e implementação devem partir de quem faz a gestão da escola. Além disso, a contratação de profissionais experientes e renomados é condição essencial para o sucesso. É necessário repensar a forma como a atual administração da Portela pensa e age no que diz respeito à preparação do seu carnaval. Para a Portela, querer ir na contramão do mercado e insistir em não gastar dinheiro naquilo que essencialmente tem relevância nos desfiles de hoje – estrutura, planejamento e bons profissionais – é dar murro em ponta de faca. Caso contrário, os grandes profissionais continuarão gentilmente recusando qualquer convite para trabalhar no carnaval da escola e as futuras colocações poderão ser ainda mais desastrosas. Quem age de forma competente e zelosa normalmente alcança o sucesso. Competência e zelo deveriam nortear a preparação dos futuros carnavais da Portela.
Por fim, a equipe PORTELAWEB gostaria de agradecer e parabenizar aqueles que, no ano de 2010, cumpriram com os seus compromissos e demonstraram respeito por esta agremiação:
- Alex Fab, Marcelo Jacob e Júnior Escafura;
- Rogério Dornelles e Lucinha Nobre;
- Gilsinho;
- Nilo Sérgio, diretores de bateria e ritmistas;
- Ala de compositores;
- Velha-Guarda;
- Nilce Fran e Valcir Pelé;
- Carlos Reis;
- Componentes;
e, em especial,
a Grande Dodô, eterna porta-bandeira, pelo incondicional amor e dedicação à Portela.
O meu azul veio lá do infinito
O meu canto é mais bonito
Salve Oswaldo Cruz e Madureira
Me chamam celeiro de bamba
A majestade do samba
Da velha guarda formosa e faceira
(Tributo à Vaidade, Portela, 1991)
Equipe PORTELAWEB
Em 26/02/2010